sábado, 18 de outubro de 2008

«04. Defendemos uma causa nobre»

«A guerra tem geralmente por móbil a vontade de dominação geopolítica, acompanhada por motivações económicas. Mas os móbiles da guerra são inconfessáveis à opinião pública.
Ora as guerras modernas, ao contrário das guerras de Luís XIV, por exemplo, só são possíveis com o consentimento da população, quando mais não seja porque os Parlamentos têm, em princípio, de dar o seu acordo para declarar a guerra*. Este consentimento será facilmente adquirido se a população pensar que desta guerra dependem a sua independência, a sua honra, a sua liberdade ou a sua vida e que esta guerra tem valores morais indiscutíveis.
Por conseguinte, a propaganda deverá esforçar-se por esconder certos móbiles e por fazer crer em outros.
(...)
Parece efectivamente que a natureza humana exige que cada grupo se apresente como agindo para o bem comum.
(...) mesmo os mais abjectos dos seres humanos raramente confessam ter motivações egoístas ou miseráveis; pelo contrário, asseguram ter boas intenções, objectivos altruístas e autoconvencem-se para manter de si próprios uma imagem positiva. Os conquistadores tentavam ganhar almas para o cristianismo, os torcionários chilenos lutavam contra o marxismo...
Depois deste autoconvencimento é necessário persuadir a opinião pública de que vai ter de participar numa nobre causa. Tem de ser convencida de que é necessário agir contra bandidos, criminosos, assassinos. Esse é também um dos princípios da propaganda de guerra: é necessário apresentá-la como um conflito entre a civilização e a barbárie. Para isso é necessário convencer a opinião pública de que o inimigo comete sistemática e voluntariamente atrocidades, eqnquanto o nosso campo só pode cometer erros bem involuntários.
É esse o quinto princípio elementar da propaganda de guerra.


*Ainda que às vezes, como na guerra da NATO contra a Jugoslávia, se tenha eludido esta "formalidade" constitucional, como aconteceu em França.»

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